{Exercícios Pleonásticos por Jamie Barteldes } spacer
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{domingo, maio 23, 2004}

 
As inúteis dicotomias

Se o tempo que perdemos olhando para a folha em branco a batucar a caneta pudesse ser aproveitado, provavelmente daria um bom texto. Porque é nesse período que antecede o toque da caneta que está contido o que se quer dizer e o que não quer se deixar ser dito.

Minha única crônica de fato boa foi aquele relatório para a aula de Sociologia pois ali a arte me era externa, porque ali não pensei como cronista, pensei como a criança que era antes de redigir aquele texto que desencadeou nisso tudo. Mas nem ali escorreu-me pelos dedos o real significado de defrontar-me com uma folha em branco a implorar: “risca-me, risca-me!”.

Este inenarrável momento que precede o beijo, que precede o tapa, que precede o rompimento do silêncio, a brancura da folha a ser quebrada. O momento do pode ser, do ter certeza da realização apimentado pela incerteza do inverso.

Os olhos se fecham e a caneta continua a escrever madrugada a dentro, pois nós não paramos os momentos, eles lá continuam. Nós é que deixamos de percebê-los por nos tornarem inúteis. A caneta está num eterno estar a tocar, as palavras estão num eterno vir a dizer. E não há dicotomia Saussureana que explique isso.

Jamie Barteldes

posted by Jamie Barteldes domingo, maio 23, 2004

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{sábado, maio 01, 2004}

 

posted by Jamie Barteldes sábado, maio 01, 2004
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Fome

Arrependeu-se do uso demasiado da expressão “morrer de fome” quando se viu de fato como se o próprio estômago buscasse saciar-se a corroer os órgãos vizinhos. Não como aquela fome que se têm as três horas, aquela fome de comer um pãozinho quente com café, não aquela fome de quando acorda-se insone no meio da noite e ataca-se a geladeira. Estas não eram fomes, e sim, meros caprichos. Fome sentia agora, e o apartamento vazio tirava-lhe a coragem de pedir ajuda, inútil seria também, pois os vizinhos jamais o ajudariam. Estava só e o cheiro da carne assando no apartamento da Dona Cátia dava-lhe tanta fome que mordera sem dó o lábio inferior até que o rubro sangue escorresse de sua boca indigna.


A cabeça girava e nada mais pensava além do que já tinha comido na vida, no que gostaria de comer. E tornara a imaginar-se num banquete, enquanto o sangue em sua boca atiçava ainda mais seu instinto de sobrevivência por comida, apenas um pouco de comida seria pouco, toda a comida do mundo seria necessária a seu estômago faminto a roncar, roncar e enjoar-lhe a ponto de mais uma vez vomitar os ácidos da digestão que não faria, misturado ao sangue que escorria de seu beiço em grande quantidade, até que tudo tornou-se um pouco mais aceitável, um pouco menos desesperador...até que sentiu-se leve e a fome já não mais o importava como se tivesse devorado todo um rebanho. E bateu-lhe o sono agradável que as fartas refeições proporcionam.


Dona Cátia bate na porta do apartamento sobre o seu com um prato de comida a atender o gemidos de fome que ouvira quando almoçava. Abriu a porta sem forcá-la, estava destrancada. Depara-se com a cena de um homem comido pela metade por ele mesmo.



Jamie Barteldes
Num dia quente de Março de 2003

posted by Jamie Barteldes sábado, maio 01, 2004

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